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Entrevista exclusiva de Viviane Sedola para The Shift

17 min de leitura,      24 de setembro de 2019


BRAIN HUB – conectando mentes disruptivas

Comunicando a disrupção

Viviane Sedola - Ceo e Fundadora da Dr. Cannabis

Desde 2014,  os brasileiros já gastaram cerca de 60 milhões de reais com a importação de medicamentos derivados da cannabis para o Brasil, segundo o advogado Claudio de Oliveira Mattos e a advogada Leticia Barhum Hailer, especializados em direito ligado a ciências da vida. O CFM (Conselho Federal de Medicina) autoriza médicos a prescrever derivados da cannabis para uso medicinal, e a Anvisa libera a importação caso a caso. 

No ano passado, 911 médicos brasileiros prescreveram a cannabis medicinal, e 6 mil pacientes estão legalmente autorizados a importar e usar medicamentos feitos a partir dos extratos da planta, os famosos canabinoides, para tratar de doenças crônicas como dor e inflamação, controlar convulsões epilépticas devastadoras, minimizar os efeitos de tratamentos quimioterápicos e até melhorar a qualidade de vida de pacientes com Alzheimer.

“Todo brasileiro tem direito a se tratar com cannabis medicinal e talvez ele não saiba disso. Se ele quiser exercer esse direito a gente ajuda”, diz a brasileira Viviane Sedola, empreendedora que no ano passado criou um marketplace “disruptor”, a Dr. Cannabis, com o propósito de conectar médicos, pacientes e empresas importadoras e facilitar o acesso ajudando nos processos burocráticos e tirando as dúvidas dos dois lados da equação: médicos e pacientes.

Formada em Relações Públicas, Viviane aposta na comunicação para ampliar o conhecimento sobre a cannabis medicinal e quebrar o preconceito sobre um mercado que se expande cada vez mais, na medida em que pesquisadores do mundo todo descobrem novos benefícios dos canabinoides e sua relação íntima com o bem-estar do corpo humano, que começaram a ser desvendados nos anos 60 pelo químico israelense Raphael Mechoulam, o primeiro a isolar o THC (tetrahidrocanabinol) e mais tarde o CBD (canabidiol).

Viviane está acostumada a explicar coisas complicadas e a abrir mercados disruptores. Começou a trabalhar em startups com o Groupon e foi co-fundadora da startup de crowdfunding Kickante, junto com a empreendedora Candice Paschoal.

Ela não se intimida com as inevitáveis piadinhas sobre o tema. “Eu não falo maconha, falo cannabis. Apesar de serem a mesma coisa, escolher as palavras é fundamental. Uma das primeiras palestras que eu fiz eu comecei dizendo ‘o nome é Dr. Cannabis, mas o tema é sério‘”. Confira a conversa.

Disrupção é …

“Quando uma empresa cria um produto ou serviço que muda para sempre a relação das pessoas com algo cotidiano. Pense no exemplo do táxi depois que surgiram os apps de transporte: ninguém mais chama táxi com a mão, usa o smartphone, mesmo que um monte de táxis vazios passe na sua frente.

Eu ouvi falar de startup pela primeira vez em 2010, ao entrar no Groupon. Quando me disseram que aquilo era uma empresa disposta a criar o novo e mudar algo para sempre, pensei, ‘isso é muito legal’. Eu era uma pessoa de inícios e não sabia.

Fiquei no Groupon até depois do IPO e o trabalho começou a ficar repetitivo. O Groupon me permitiu criar uma rede muito legal de contatos. Chegou um determinado ponto em que eu conhecia pelo menos uma pessoa em todas as “ponto.com” do mercado e eu saí.

Fui convidada para entrar na plataforma de crowdfunding Kickante pela Candice Paschoal CEO e fundadora. Na Kickante, por ficar ao lado dela o tempo todo, consegui acompanhar e entender o negócio como um todo: gestão de pessoas, decisão, captação de fundos etc.. Conseguimos crescer a plataforma de 30 campanhas por mês para 1.500 campanhas/mês. E aí vi que meu papel estava cumprido e que o processo andaria mesmo sem mim.

Combinei minha saída sem bem saber o que eu queria e fui para a Bahia em busca de respostas. Não veio a epifania. Depois de passar 4 anos ajudando pessoas a captar recursos para realizar os sonhos delas, eu queria trabalhar com alguma coisa que gerasse um retorno direto. Comecei a procurar empresas que faziam investimento de impacto.

Encontrei a SuperJobs, que é um fundo que trabalha nessa linha, e o Marcos Botelho, CEO, me contou que estava investindo em empresas de cannabis na Califórnia e que tinha uma médica em São Paulo que estava prescrevendo cannabis medicinal legalmente no Brasil. Comecei a explorar a história. Registrei a marca, coloquei um blog no ar, comecei a gerar conteúdo focado no uso medicinal.

Essa tese de que conseguimos gerar riqueza enquanto estamos resolvendo os problemas do mundo me interessava. Tinha trabalhado com as maiores ONG do mundo mas não queria abrir mão do meu lado empreendedor.

Comecei a entender o que as pessoas queriam com a cannabis medicinal enquanto explorava potencial do mercado e tentava desenhar um modelo de negócios. Descobri que tinha médicos prescrevendo, que a Anvisa tinha uma resolução que permitia que pacientes, cujos médicos indicavam a necessidade do uso, importassem excepcionalmente produtos a base de cannabis. Que havia algumas empresas no Brasil, 2 ou 3 marcas, trabalhando em silêncio e vários pacientes procurando ajuda.

Tudo era muito na surdina, porque quando o paciente procurava o tratamento tinha uma série de questões. Primeiro ele tinha que achar um médico que prescrevesse. Depois, vinham as perguntas: ‘Será que posso usar?‘ ‘Será que é para mim?’Será que essa resolução da Anvisa me cobre?’ ‘Será que posso usar mesmo não tendo uma doença gravíssima?

Além disso, a burocracia é complexa – 4 documentos, bem preenchidos para que possa importar. Entendi que com a tecnologia a gente poderia cuidar da parte burocrática, listar os médicos dentro da base, apoiar no processo de prescrição.

Criamos a Dr, cannabis para ser um espaço seguro para médicos e pacientes.

O médico encontra lá outros colegas que também prescrevem, e só pacientes que estão procurando o tratamento com cannabis medicinal. Isso é importante porque o próprio médico tinha dúvidas de como agir no consultório ao recomendar a cannabis, porque não sabia se o paciente ia reagir mal. Hoje as pessoas que usam a medicação, por exemplo, ainda sofrem preconceito dentro das próprias famílias, mesmo sabendo que faz bem para sua saúde, que resolve um problema grave.

A Dr. Cannabis começou em novembro de 2018 e começamos fazer o match entre pacientes e médicos. Fomos entender a dificuldade do médico no enfrentamento da burocracia. Ele tinha que parar o trabalho e preencher uma série de documentos da Anvisa, juntar dados dele, do paciente, definir a prescrição, relatar tudo etc., e isso levava em média 30 dias. A Anvisa levava mais 30 dias para analisar – hoje já são 60 dias.

Quem tinha pressa de ter o tratamento, porque estava com dor, com crises, não queria demorar tanto.

Hoje, a interface que criamos oferece 3 telas para o médico montar tudo, escolher produto, prescrever o uso etc. e nós autocompletamos dentro do padrão da Anvisa. Minha equipe revisa os documentos, envia para a Anvisa e a gente cuida do processo.

Minha ideia de marketplace é uma plataforma que agrega valor para todos os participantes dessa história – médicos, pacientes e, finalmente, na terceira ponta, as marcas, que são as maiores beneficiadas no processo porque têm mais clientes. Para o médico e para os pacientes o serviço é gratuito e as marcas então pagam a comissão sobre a compra.

A autorização da Anvisa vale por 12 meses e geralmente quem faz uso do remédio tem uma doença crônica, portanto é uso contínuo, já que a doença te acompanha a vida toda. Hoje temos 3 marcas parceiras e eu recebo pelo menos 4 ou 5 emails por semana de gente se oferecendo, interessada em entrar no mercado. Olhamos isso com muito cuidado porque não é simples importar e comercializar. Optamos por trabalhar com quem está aqui porque é mais simples e mais seguro. Temos duas marcas para lançar em breve e mais algumas interessadas.

Não temos um benchmark, porque cada país tem um jeito diferente. A primeira coisa que fiz foi buscar aconselhamento de um advogado criminalista especializado em drogas que já acompanhava esse mercado para ter certeza de que o caminho era seguro.

Tive a chance de viajar bastante pela Dr. Cannabis e vi que na América Latina tem oportunidade de aplicar o mesmo conceito porque em vários países as pessoas estão também procurando médicos que prescrevam. Então tem oportunidade de ampliar para a América Latina.

Existe a necessidade do nosso serviço em outros lugares. A questão regulatória é complexa e muito específica, portanto deveremos explorar com parceiros em outros países. México, Colômbia, Chile e Argentina já tem legislação e podem se beneficiar do modelo do marketplace com ajustes específicos para cada legislação e regulamentação.

A gente está sempre buscando funding, vamos seguir captando. Comecei com investimento anjo, no powerpoint mostrando que estávamos abrindo a comunicação de um mercado que estava se abrindo. Quando tive a opinião legal de que o negócio podia funcionar, parti para um equity crowdfunding, especialmente para ter a chancela legal de alguma instituição – nesse caso a CVM – em um negócio que sempre é visto de forma complexa e muitas vezes preconceituosa ou distorcida.

Em uma reunião da comissão de direitos humanos do Senado, por exemplo, um senador insinuou que o negócio era “torto” e disse que era preciso seguir o dinheiro para achar o problema. Eu respondi que se ele seguisse o meu dinheiro ia chegar na CVM.

A cannabis tem cerca de 500 substâncias, 140 canabinoides foram sequenciados, assim como vários terpenos (cheiros) e vários flavonoides (sabores). Cada um deles tem uma ação terapêutica. A planta inteira tem uma ação sistêmica, metabólica, chamada Efeito Comitiva (Entourage Effect), descoberto no laboratório do químico israelense Raphael Mechoulam. No mesmo laboratório onde Mechoulam descobriu e isolou pela primeira vez, em 1964, o THC (tetrahidrocanabinol) e o CBD (canabidiol), e outros canabinoides.

As evidências clínicas indicam que quando se usa o CBD em combinação com o THC o resultado é muito melhor. Você precisa de menos concentração de CBD se combinar com 0,2% de THC, por exemplo, porque o THC potencializa a ação e o tratamento fica mais barato.

A legislação proíbe combinar CBD com THC porque diz que é arriscado, mas não é. Você teria que consumir o equivalente ao seu peso corporal em óleo, em duas horas, para ter um problema.

A grande revolução, há 25 anos, foi a descoberta de que nosso corpo tem um sistema endocanabinoide, que ajuda o organismo a se manter equilibrado e está envolvido em processos cognitivos e fisiológicos como apetite, dor, inflamação, resposta ao estresse, humor e memória. E que produzimos nosso próprio endocanabidiol, a anandamida. 

O verdadeiro processo disruptivo é fazer o médico entender o sistema endocanabinoide, porque ele não estuda isso na faculdade. Na plataforma temos mais médicos entrando para entender como prescrever. Mas não dá para prescrever cannabis medicinal como se prescreve um remédio de dor de cabeça.

Há uma dosagem específica para cada pessoa, porque cada sistema endocanabinoide é único. Isso exige do médico uma relação mais próxima com o paciente, de acompanhamento para entender os efeitos e ir ajustando, e essa é uma relação muito mais parecida com a homeopatia do que com a alopatia.

A natureza é sábia para criar uma planta que pode modular nosso corpo. Por que isolar se o conjunto funciona muito melhor?

43% da população adulta brasileira sofre de alguma doença crônica (IBGE 2013). Sem falar no uso em cuidados paliativos, como coadjuvante em tratamentos oncológicos, especialmente em processos quimioterápicos, porque ajuda a reduzir náuseas. E há evidências de que ela pode ter ação antitumoral, por exemplo.

Os medicamentos começam em US$ 40 e podem chegar a US$ 450, depende da concentração. O custo médio é de 1.200 a 1.500 reais por mês. Não é acessível para todos os pacientes, é claro. Mas tem mães que hoje cuidam de crianças que sofrem de autismo severo, que se automutilam e que não podem ficar sozinhas. Nesses casos o tratamento tem um impacto importante na família toda, e a mãe consegue voltar a trabalhar, por exemplo. 

Não dá para comprar anúncio para divulgar quando seu nome é Dr. Cannabis. O Facebook não aceita, Google não aceita, Instagram não aceita.

Escolhi o nome porque ele já conta a história toda, vai sozinho e é internacional. É inevitável ter piadinha, mas o fato de eu ser relações públicas foi fundamental. Eu não falo maconha, falo cannabis. Apesar de serem a mesma coisa, escolher as palavras é fundamental. Uma das primeiras palestras que eu fiz eu comecei dizendo “o nome é Dr. Cannabis, mas o tema é sério”. 

Imagina que você tenha um filho e ele tem convulsões 20 horas por dia. Aí você descobre que tem um óleo que fez com que crianças na mesma situação ficassem dois meses sem convulsionar. O que você faria para ter acesso a isso?

E como podemos beneficiar as pessoas com problemas com depressão, por exemplo? Ou fibromialgia? A autonomia da vontade está prevista na Constituição Brasileira e na Declaração dos Direitos Humanos da ONU. Se eu, paciente, sei que existe isso, eu tenho o direito a testar. A minha vontade deveria ser assegurada, e nós cumprimos nosso papel de informar isso. Todo brasileiro tem direito a se tratar com cannabis medicinal e talvez ele não saiba disso. Se ele quiser exercer esse direito a gente ajuda.

Para entender melhor a história


Você pode ler o original no The Shift!

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