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A história da Cannabis: da veneração ao proibicionismo

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1 de outubro de 2021

O primeiro registro físico do uso da Cannabis foi feito em uma escavação em um cemitério em Jirzankal, na China, onde pesquisadores encontraram vestígios da planta queimados em utensílios que lembram cachimbos datados de 2.500 anos. O estudo foi publicado pela revista Science Advances, em 2019. E assim começamos a contar a história da Cannabis.

Os arqueólogos Yang Yimin e Ren Meng, da Academia Chinesa de Ciências em Pequim, relatam na publicação que encontraram evidências físicas claras do uso da Cannabis em um remoto planalto montanhoso na Ásia Central cerca de 2.500 anos atrás.

De acordo com artigo publicado também na revista Science, a Cannabis evoluiu cerca de 28 milhões de anos atrás no planalto tibetano oriental, de acordo com um estudo sobre pólen publicado em maio em 2019 na mesma revista.

A publicação também afirma que mais de 4.000 anos atrás, os agricultores chineses começaram a cultivar a planta para obter óleo e fibras para fazer cordas, roupas e papel. Porém, esses pesquisadores ainda não conseguiram aferir quando o ser humano começou a se aproveitar as propriedades psicoativas da Cannabis.

Segundo a revista, “arqueólogos fizeram alegações de queima de Cannabis ritualística em locais da Ásia Central há 5.000 anos. Mas novas análises dessas plantas, feitas por outras equipes, sugerem que as primeiras cepas de Cannabis tinham baixos níveis de THC (tetrahidrocanabinol), o componente psicoativo mais poderoso da planta, e, por isso, não tinham propriedades de alteração da mente.”

Entretanto, a Cannabis encontrada no cemitério de em Jirzankal era, segundos os pesquisadores, diferente e apresentava altos índices de THC, além da forma de consumo, o que indica que esse povo fazia uso da planta para fins psicoativos.

Os vestígios dessa queima foram encontrados em meio a artefatos típicos dos sogdianos, um povo do oeste da China e do Tadjiquistão que, geralmente, seguia a fé persa do zoroastrismo, que, mais tarde, celebrou as propriedades de expansão da consciência com a planta em textos sagrados.

Antigas obras de arte e referências textuais da Síria à China sugerem um uso ainda mais antigo da planta, mostrando a potência da história da Cannabis na humanidade.

Já quando se trata do uso terapêutico da planta, um dos registros históricos data de 2.700 a.C., na primeira farmacopeia da história, o Pen-Tsao Kang-Um, um tradicional livro chinês que traz a informação sobre valores medicinais de mais de 1.800 herbáceos. Na publicação, a Cannabis foi citada como uma planta indicada para tratar reumatismo, beribéri, malária, prisão de ventre, gota, entre outras, além de ser capaz de retardar o envelhecimento e melhorar a circulação, prevenir a estagnação do fluido linfático.

Em artigo publicado na Gale Academic Onefile afirma que, no século 2 a.C., Plínio, o Velho, prescreveu semente de cânhamo para constipação, dores de ouvido, alívio de dores nas articulações, gota e queimaduras. Já seu contemporâneo, Galeno, descreveu como os romanos fritavam e consumiam a semente. “Com o colapso do Império Romano e a Idade das Trevas, o uso e o estudo do cânhamo foram suspensos. A Inquisição proibiu o uso do método científico e da fitoterapia na Europa em favor da Igreja medieval, da magia e da caça às bruxas.”

A Cannabis também tem forte presença na Índia, sendo considerada uma das cinco plantas essenciais nos Vedas, textos sagrados antigos do hinduísmo com mais de 5.000 anos.

A dra. Uma Dhanabalan, mestre em Saúde Pública pela Universidade de Harvard, aplica a Canabinologia Integrativa, Endocanabinologia Funcional e Medicina Canabinoide em seus atendimentos e há anos se dedica educar as pessoas sobre os benefícios terapêuticos da Cannabis.

Em entrevista ao site indiano The Economic Times, a Dhanabalan afirma que a Cannabis faz parte da cultura medicinal e espiritual indiana. “É uma das cinco plantas essenciais mencionadas nos vedas, junto com soma e cevada…No ayurveda [medicina tradicional indiana], era usada para melhorar a memória, contra a lepra e muitas outras coisas.” Segundo a médica, “a Índia foi a origem da Cannabis como remédio”.

Na Índia, a história da Cannabis está relacionada ao deus Shiva, que usou o “bhang” (Cannabis, em sânscrito) após receber de sua consorte (esposa), Parvati, para aliviar a dor após ter ingerido veneno. Essa é apenas uma das histórias em que esse deus hindu aparece relacionado a Cannabis, garantindo sua sacralidade entre os hinduístas.

A expansão da Cannabis

Já avançando na história, Gregos e Romanos também fizeram uso da Cannabis para fabricar tecidos, papeis, cordas e óleo. Velas de navio e cordas também eram feitas com cânhamo por esses povos da antiguidade.

A história da Cannabis se expandiu da Índia para a Mesopotâmia, depois Oriente Médio, Ásia, Europa e África. Sempre muito pouco usada por seus efeitos psicoativos e terapêuticos. Na Renascença, a planta se tornou um importante produto agrícola na Europa. Inclusive, ironicamente, a primeira Bíblia imprensa, a Bíblia de Gutemberg, foi feita com papel de cânhamo.

Por que ironicamente? Simples. Logo a Igreja passou a perseguir a planta e quem se atravesse a usá-la, inclusive para fins medicinais, podendo a pessoa ser acusada de bruxaria e ser queimada na fogueira, na famosa caça às bruxas.

Mas essa má-fama da planta começa a cair por terra nas mãos dos revolucionários culturais na Belle Époque (final do século 19), na França. Artistas e escritores faziam seu uso adulto e medicinal e estudavam a planta. Dentre esses intelectuais estavam: Eugene Delacroix, Victor Hugo, Charles Buadelaire, Honoré de Balzac e Alexandre Dumas, que fumavam haxixe e observavam os efeitos da Cannabis para tratar doenças mentais.

A chegada na América do Sul e o proibicionismo

Eis que a planta chega na América do Sul via colonizadores e começa mais um capítulo da história da Cannabis. No Brasil, as velas das Caravelas de Pedros Álvarez Cabral eram de cânhamo. Africanos escravizados traziam a planta escondida nos navios para que seguissem seus ritos no Candomblé, que é algo que poucas pessoas sabem e poucas admitem por conta dos dogmas religiosos e o proibicionismo que deixou o uso ainda mais restritos entre os grupos. Há também a versão de que marinheiros também trouxeram a planta, a introduzindo em território nacional.

Portugal plantou muita Cannabis no Brasil com intuitos econômicos. Mas sua alta potência econômica e terapêutica não foi o suficiente para que a erva passasse a ser discriminada, por seu uso ser relacionado às pessoas pretas e pobres.

A primeira proibição oficial no Brasil é datada de 1830, no Rio de Janeiro, que veio em forma de documento emitido pela Câmara Municipal. Mas não foi o suficiente para deter o uso, que passou a ser feito também por moradores das grandes cidades, e não somente pelas pessoas que sofriam discriminação e racismo.

Esse crescimento fez com que as autoridades tomassem atitudes mais drásticas. O governo do Rio passa então a reprimir a cultura africana e indígena que fazia uso da Cannabis para fazer da cidade um modelo para o Brasil, então começou uma verdadeira caçada. Logo essa população perseguida era jogada à margem da cidade, criando-se as favelas.

Mas podia piorar. A participação de um brasileiro em uma reunião da Liga das Nações, nome dado anteriormente a ONU (Organização das Nações Unidas), fez com que a Cannabis entrasse para a lista de substâncias passivas de punição. No discurso, esse cidadão afirmou que a planta matava mais que o ópio, ajudando a mudar os rumos da história da Cannabis no mundo.

Em 1961, a já então ONU, inseriu a planta na lista de drogas perigosas, ao lado da heroína, no mesmo período em que o movimento hippie colocava a Cannabis no status de expansor de consciência e criatividade.

Desde então, grupos têm se formado pelo mundo todo a favor da descriminalização da Cannabis. Com o avanço das pesquisas e a quebra de tabus, a planta começa a ser vista como ela realmente é: apenas uma planta e com alto potencial terapêutico. Diversos países pelo mundo já reconhecem o potencial da Cannabis. Porém, ainda há um caminho longo a ser percorrido para que essa planta pare totalmente de ser discriminada e possa ser aproveitada em todos os setores econômicos e medicinais possíveis.

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